Barulho. Tudo começou e começa por aí. Se pararmos para pensar, damos muito mais atenção ao sentido da visão que ao da audição em nosso dia-a-dia, mas o som em si tem uma paisagem que é muito interessante (veja as obras de Murray Schafer para descobrir mais sobre o conceito de "paisagem sonora").
Tanto a música quanto as linguagens começaram com o som, e depois foram para as folhas (e telas). Podemos dizer, de maneira simplista, que o som é mais "real" que a palavra, uma vez que acontece de verdade, sendo um fenômeno físico, diferente da palavra, que é algo criado e munido de significado, mas não vamos problematizar isto agora.
Para você que está estudando idiomas e que deseja um dia entendê-lo (ou já o entende e quer melhorar esta compreensão), o que muda saber que "a linguagem é barulho"? Muda, principalmente, sua mentalidade. Tendemos a ter uma conexão muito forte com a palavra escrita, não nos debruçando devidamente à escuta. Escutar é uma arte. Proponho um experimento.
Pegue um vídeo de uma linguagem a você totalmente estranha e assista-o primeiramente com legendas. Neste caso vou escolher o idioma letão (você sabia que o filme Flow, vencedor do Oscar de melhor animação de 2025, é letão?):
[algum vídeo curto, legendado, do idioma letão]
Em seguida, vamos retirar a legenda (I), prestando atenção no som produzido (II), sem tentar lembrar do que cada palavra significa (III) - este último passo é importante.
Em linguagens assim, muito diferentes da nossa, é normal termos nenhum ou quase nenhum ponto de referência ou comparação, e, portanto, tudo parece ruído (barulho), o que é um fenômeno bem interessante, concorda?